Hamnet, o trabalho do luto através da simbolização proporcionada pela arte

 






Texto produzido pelo Grupo de Estudos de Psicanálise de Taquaritinga (GEPTq) a partir da análise do filme Hamnet para o CineReflexão

Maurício Ferraro 
@m.ferraro23
Tamires Fernanda Moreira 
@psic.tamiresmoreira
Thaís Lourençano 
@psi.thaislourencano


Hamnet: A vida antes de Hamlet, dirigido pela vencedora do Oscar Chloé Zhao (Nomadland), que também assina o roteiro ao lado de Maggie O'Farrell.

Introdução

Quando vemos um filme, uma peça de teatro, um quadro ou uma escultura no museu, lemos um livro ou ouvimos uma música, algo dentro de nós é tocado. O artista exerce um papel essencial: transformar em figura, palavras e símbolos aquilo que é indizível no humano, ou seja, aquilo que é inconsciente. Enquanto humanos dotados de uma mente pensante, precisamos de signos e significados para dar sentido à nossa existência e às experiências da vida. Devemos, então, ao artista e à arte, o grande gesto de realizar esse trabalho, para que nós não apenas possamos admirar sua obra, mas também identificar como nosso aquilo que está sendo exposto, tendo a oportunidade de sentir e pensar sobre o que, por vezes, nos parecia impensável.

Freud chamou esse processo de sublimação. Ele explica que a libido, energia existente dentro de nosso aparelho psíquico, ao se ligar a desejos que consideramos não aceitáveis por algum motivo (seja pela dor que nos causam, seja por não serem aceitos moralmente e socialmente), seria naturalmente endereçada ao inconsciente por meio do recalque. O problema é que a libido recalcada não sossega: ela bate à porta do consciente, pedindo para ser liberada. A solução, então, seria o sintoma, o adoecimento. Porém, quando se produz ou se aprecia uma obra de arte, a libido pode tomar um caminho diferente e mais saudável. Nossos desejos recalcados podem voltar à consciência, ser pensados, sentidos e elaborados, sem que haja prejuízo na vida real. É o que vemos ser demonstrado no filme Hamnet.


Discussão

Existem muitas peças de teatro e filmes que seguem o roteiro escrito por William Shakespeare, mas o que vemos neste filme não é a peça que se torna o foco da trama, e sim aquilo que aconteceu antes dela. Vivenciamos, junto com os personagens, um pouco da vida de Shakespeare e de sua esposa Agnes, que ganha o protagonismo do filme, com seus três filhos: Susanna (a mais velha) e os gêmeos Judith e Hamnet (que, na época, também podia ser chamado de Hamlet, sendo um nome intercambiável).

Em Luto e Melancolia, Sigmund Freud descreve o luto como um processo psíquico necessário, no qual a pessoa vai, aos poucos, se desligando daquilo que perdeu. Quando uma mãe ou um pai perde um filho, não há somente a perda física: perde-se também o futuro imaginado, os projetos e a própria identidade como mãe ou pai. Já a melancolia ocorre quando a pessoa fica presa à perda, com culpa intensa, vazio ou perda de si. A perda de um filho é uma perda que atinge o campo do desejo e do sentido da vida. Na psicanálise, não se fala em “superar”: o vínculo com o filho não desaparece, ele se transforma internamente. Da mesma forma, não existe luto certo. Alguns falam demais, outros silenciam; alguns se conectam com lembranças, outros evitam. Vemos, no filme, que Agnes e William vivenciam o luto de formas diferentes.

A ideia do CineReflexão é promover uma roda de conversa em que possamos pensar sobre o filme e o quanto fomos atravessados por ele. Não existe certo nem errado aqui. Como diria Freud, permitam-se associar livremente. Gostaríamos de perguntar a vocês: quais reflexões o filme provocou dentro de vocês? O que vocês pensaram a partir do filme exibido?

No ano passado, tivemos a oportunidade de realizar um CineReflexão em que o filme escolhido foi A Filha Perdida, no qual também vemos Jesse Buckley interpretando a versão mais jovem da protagonista. É um filme que aborda a maternidade e o papel da mulher na sociedade, uma obra espetacular que vale muito a pena ser vista.

Já em Hamnet, vemos essa mesma atriz, que foi amplamente premiada (merecidamente), representando uma mulher e mãe que é quase uma força da natureza. A conexão que Agnes estabelece com o ambiente natural, com seu falcão (com o qual ela aparentemente se comunica melhor do que com as pessoas) e seu sexto sentido são retratados de forma sensível e bela. O filme convida o espectador a ouvir os sons da natureza e a se conectar com o que Agnes sente. Isso se evidencia, por exemplo, no momento em que ela precisa de espaço para dar à luz e escolhe estar em meio à natureza, quase se fundindo à floresta para trazer sua filha mais velha ao mundo. Somos tocados pelos gestos, símbolos, sons da natureza e silêncios que se fazem presentes em vários momentos do filme.


Em sua segunda gestação, Agnes não consegue dar à luz na floresta, o que juntamente com a música, a chuva e o ambiente escuro, nos traz um sentimento de mau presságio. Além disso, Agnes acreditava que teria dois filhos em seu leito de morte. Eis que dessa segunda gestação nascem gêmeos, algo inesperado para ela. A menina bebê aparenta estar morta ao nascer, e a parteira quer enterrá-la sem dar a chance para a mãe segurar sua filha nos braços pelo menos uma vez, justificando que daria azar. A esposa de William insiste para pegar o bebê sem vida e, após alguns segundos angustiantes, a menina começa a chorar em seu colo. Parece que a mãe passa a acreditar, a partir desse momento ter ressuscitado Judith e ser a responsável por manter a filha viva, já que ela é frágil desde o nascimento. Lembremos que ela acreditava ser uma bruxa.

Os gêmeos crescem, aparentando ter entre 8 e 10 anos no filme e sendo muito parecidos brincam de trocar de lugar. Judith fica doente, pega a peste, como diziam. Mas não é ela quem morre. Hamnet troca de lugar com ela na morte. Agnes encontra Judith curada e Hamnet em fase final ao amanhecer do dia. Quando Hamnet morre, vemos Agnes vivenciar o luto em sua forma mais intensa e genuína. O grito de dor de Agnes é dilacerante. Ao assistir a essa cena, é como se pudéssemos sentir essa perda dentro de nós. É um misto de tristeza, raiva e dor que sentimos junto com Agnes.

Podemos pensar que, a essa dor dilacerante da perda, se acrescenta um sentimento de culpa dessa mãe, que tinha a crença de ter trazido Judith de volta quando estava morta, e também por não ter percebido que Hamnet já adoecia. Agnes, preocupada com Judith, que sempre teve saúde frágil, e acreditando ser ela, a mãe bruxa, a responsável por mantê-la viva, pode ter se sentido responsável por não perceber que Hamnet já estava doente antes de chegar ao estado moribundo.

Após a morte do filho, Agnes parece passar a projetar no marido sentimentos intensos de culpa e dor, acusando-o de não estar presente no momento da morte do filho. Ela sempre apoiou o trabalho do marido, e essa acusação nos parece, de repente, fora de lugar. Porém, é possível pensar que essas falas também indiquem um sentimento de solidão, de ser mãe solo praticamente, e talvez até um ressentimento por ter atravessado tanto sofrimento sem o pai das crianças presente, algo que pode ter estado em Agnes durante muito tempo.

Não há como sair impune de Hamnet. O filme nos mostra não apenas uma mãe lidando com o luto, mas também um pai que enfrenta sua própria dor e utiliza a arte como forma de expressão e elaboração.

Agnes parece sentir um luto mais corporal e intenso, em que, inicialmente, sente raiva, grita de dor e precisa dessa conexão com a natureza. William, por sua vez, utiliza a linguagem, expressando essa dor em arte, talvez também a culpa que sente por não estar presente quando seu filho faleceu, como uma forma de tentar dar sentido ao insuportável.

Há ainda situações em que o luto se torna mais complicado e mais longo, e até se arrasta por muitos e muitos anos: situações em que as pessoas têm dificuldade de realizar esse trabalho do luto e se desligar do ente perdido. Podemos pensar que o luto de William só pôde ser elaborado a partir da escrita e encenação da peça Hamlet. Encontramos nela várias simbologias. Podemos pensar, por exemplo, que William se coloca como o rei morto, ou seja, ele troca de lugar com o filho, que, na peça, vive. Vive como sonhado pelos pais, trabalhando nas peças com o pai. Isso nos sugere que ele preferiria ter morrido no lugar no filho tamanha era a intensidade de sua dor.

Agnes, por sua vez, parece ter a chance de revisitar as expectativas e sonhos que tinha para o filho ao assistir à peça e, durante a encenação, ir se despedindo dele, deixando-o partir, como mostra a cena do menino indo embora no final.

As cenas em que Hamnet fica como que perdido, morto em algum lugar, chamando pela mãe, podem ser compreendidas como um Hamnet psíquico dentro da mente de Agnes: ainda perdido, ainda mantendo as lembranças em relação a ele muito dolorosamente investidas. Nesse sentido, é possível pensar que o filme nos mostra a arte permitindo a vivência do luto do filho, um intercâmbio psíquico de papéis que não foi possível na realidade, e o trabalho do luto sendo realizado através da peça.

Escolhemos esse filme porque queríamos também alertar para a importância e a dimensão da presença artística em nossas vidas. A arte amplia o psiquismo, ajudando-nos a pensar, viver e entender sentimentos antes impensáveis e impossíveis de viver ou compreender.

O luto não apaga o amor: ele o transforma. A cena final é onde podemos ver isso acontecendo. Quando Agnes está assistindo à peça escrita por William Shakespeare, ela não vê apenas uma encenação: ela parece ver a si mesma. A peça a transporta para a própria vivência, para a memória do filho perdido e para o luto que vivenciou e ainda vivencia. Podemos pensar que esse é o primeiro contato dela com a arte como espelho, como se fosse um ritual de ressignificação da própria dor, compreendendo que aquela obra nasce da mesma ausência que a consome.

O filme encerra com um silêncio devastador, mostrando os gestos e o peso de cada gesto, com a trilha sonora ao som de Max Richter. É como se o filme sugerisse que a arte é uma das únicas formas de tocar aquilo que as palavras não alcançam.

Tocamos em algo muito humano neste encontro: a dor da perda e a força do amor que permanece. A psicanálise nos ensina, desde Sigmund Freud, que o luto não é sobre esquecer, mas sobre transformar. Transformar a presença em memória, o vínculo em algo que continua existindo dentro de nós. Talvez o mais difícil seja aceitar que algumas perdas não têm explicação, não têm reparo, mas têm significado. E esse significado, muitas vezes, está no amor que existiu e que continua, mesmo na ausência: onde houve amor, nada se perde completamente.


Fechamento

Neste evento de hoje, tivemos a ambição de gerar uma experiência emocional atrelada a um encontro e a simbolizações, produzindo pensamentos que vão se desdobrando.

Recentemente, celebrando os 130 anos do psicanalista Winnicott, a psicanalista Marília Velano apresentou o artigo Mais Vida, Menos Vida, citando também o texto em que Winnicott pergunta: A vida presta? Ela nos traz uma reflexão sobre os caminhos que podem levar a um esgotamento psíquico e outras vias que, por sua vez, podem potencializar a vida. Ela reforça a necessidade de um contraponto ao meio, visando a uma transformação do ambiente, sendo tarefa de cada sujeito produzir as próprias razões pelas quais a vida irá prestar. Nessa transformação, o mundo que era impessoal passa a ser também pessoal, aproximando o sujeito de algo familiar.

Nesse filme, temos um casal que se arrisca, que se lança em uma busca original, evitando a tragédia de uma vida excessivamente adaptada. William Shakespeare se rebela contra um pai autoritário e inflexível, que impunha ao filho uma espécie de conversão ao seu modo de vida. Agnes, por sua vez, não abria mão de sua relação com a natureza, com suas poções e com suas crenças.

O casal apresentado lutava contra essa estranheza velada, contra um julgamento social que rotulava “a feiticeira e aquele que não prestava para nada”. Podemos pensar na figura do “Corcunda de Notre-Dame” que, com sua estranheza física, coluna torta e uma imensa verruga que cobria seu olho esquerdo, também sofria rejeição social, sendo tratado como um “espírito mau”, lançado ao isolamento. Quasímodo, nome desse personagem, simboliza e personifica o sofrimento de quem é reduzido a um padrão social negativo, demonstrando a repugnância ao diferente.

Podemos identificar a relação entre a vitalidade (“Mais Vida”) e o esgotamento (“Menos Vida”) neste filme de hoje, no qual se verifica a potência da simbolização e da arte como ferramentas de resistência contra a desumanização e a opressão.

No filme, existe uma busca por tecer um sentido: “tecer” um sentido onde antes havia apenas a estagnação diante do trauma. Ao transformar o nome “Hamnet” no imortal “Hamlet”, o protagonista retoma o processo de subjetivação, saindo da passividade da dor para a atividade da criação. Pode-se pensar que ocorre, então, uma “reposição simbólica”, fortalecendo o Eu e aliviando o sofrimento existencial, transformando a relação com a perda daquele filho e saindo da passividade da dor para a criação.

Surge, então, a resistência à desumanização e à barbárie. É possível compreender que a arte em Hamnet funciona como uma barreira contra a “desumanização do homem” e a “invasão da barbárie”.

Outro autor, Mário Ferreira dos Santos, em seu livro A Invasão Vertical dos Bárbaros, nos lembra que o homem se distingue dos animais por sua capacidade de “frustrar os seus atos naturais”, sua impulsividade. O autor, em sua obra, denuncia um processo de barbarização que não ocorre por uma invasão geográfica (horizontal), mas por uma invasão cultural (vertical), que corrompe a sociedade a partir de dentro. Ele define “bárbaro” não mais como um estrangeiro, como ocorria em séculos passados, mas como aquele que combate as manifestações da cultura. Essa invasão se manifesta através de uma sistemática inversão de valores e da degradação da sensibilidade e da afetividade. A invasão bárbara se revela na valorização de tudo aquilo que afirma a animalidade no homem, em que ocorre a exaltação da força sobre o direito.

Citando outro livro, A Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han define o esgotamento moderno como uma redução do ser humano ao “animal laborans”, preso na sociedade do desempenho, dominado pelo automatismo. Para Han, a onipresença da multitarefa e o estímulo constante destroem a capacidade de atenção profunda, transformando o ser humano em um ser hiperativo, porém espiritualmente exausto.

Este filme, este encontro e esta conversa nos mostram outros caminhos, possibilitando novos pensamentos e permitindo a quebra de uma bolha individual, de verdades absolutas.

Penso que, através da simbolização, o ser humano deixa de ser um “troço vivo”, conquistando, assim, uma realidade tecida com sentido e vitalidade criativa.

Hamnet sugere “Mais Vida” ao demonstrar que a capacidade de simbolizar o irrepresentável (a morte) é o que permite ao sujeito não sucumbir ao “infarto da alma” e reintegrar-se em uma existência plena de sentido.

 

Referências

FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. In: FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. In: FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

HAMNET: a vida antes de Hamlet. Direção: Chloé Zhao. Roteiro: Chloé Zhao; Maggie O’Farrell. Estados Unidos: Universal Pictures, 2025. Filme (duração aproximada: 125 min).

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015.

O’FARRELL, Maggie. Hamnet. Tradução de Regina Lyra. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.

RICHTER, Max. Hamnet (Original Motion Picture Soundtrack). [Trilha sonora]. Estados Unidos: Deutsche Grammophon, 2024.

SANTOS, Mário Ferreira dos. A invasão vertical dos bárbaros. São Paulo: É Realizações, 2011.

VELANO, Marília. Mais vida, menos vida: Winnicott e a pergunta “A vida presta?”.

WINNICOTT, Donald Woods. A vida presta? In: WINNICOTT, Donald Woods. Tudo começa em casa. Tradução de Paulo Sandler. São Paulo: Martins Fontes, 1996.






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